A psicologia da obesidade
Já faz algum tempo (dois meses e meio) que não escrevo nada novo neste blog. A principal razão para isso, para a falta de motivação, é o fato de as pessoas aportarem aqui apenas em busca de fórmulas milagrosas para emagrecer, ou — pior ainda — tentando adquirir medicamentos controlados sem receita médica. Todos os dias eu penso em escrever novamente explicando por que não permito este tipo de material no meu site, mas acabo ficando descoroçoado ante a insistência das criaturas em não lerem, e quando lêem em não entenderem o que eu quero dizer.
Mas pode acontecer de apenas uma pessoa não ter o mesmo comportamento da turba disforme que procura milagres gratuitos, e se você for esta pessoa, é para si que serão dedicados os próximos parágrafos, nos quais pretendo dar a minha visão sobre as causas psicológicas da obesidade.
Uma das mais frustrantes constatações ao ler os comentários que os leitores deixam aqui (muitos dos quais eu não publico, por serem ofensivos ou perniciosos) é a de que as pessoas só buscam combater os efeitos de seu problema, retratados no sobrepes, e rechaçam veementemente qualquer abordagem que sugira que procurem as causas reais de seu problema.
De maneira resumida, podemos considerar a gordura excessiva no corpo como indícios de retenção (de mágoas, rancor, ódio, medo, etc) e de fragilidade (a gordura funciona como uma “camada protetora” que impede que as ameaças externas cheguem ao indivíduo). Estas duas visões não se excluem, e é até comum que os dois princípios coexistam na mesma pessoa.
Regra geral, o obeso é hipersensível. Rancoroso, ele não consegue perdoar os erros do passado (os seus próprios ou os de terceiros), e pela sua imaturidade — que não tem nada a ver com a idade cronológica — ele atribui sempre a terceiros as causas de sua frustração, raramente ou nunca assumindo a responsabilidade pelas suas próprias escolhas; assim, ao reter esse rancor, esse desamor, ele necessita criar um mecanismo de proteção, já que ele acha que a ameaça está fora; e está feita a combinação perfeita para que camadas e mais camadas de gordura se acumulem. Vale notar que as pessoas — principalmente as que não têm que lutar contra a obesidade — simplificam tudo ao dizer que todo gordo come demais. Como toda generalização, esta é leviana. Conheço gordos que realmente comem pouco, muito pouco, e ainda assim continuam acumulando cada vez mais peso, cada vez mais gordura. Isso porque o organismo acaba assimilando o medo inconsciente que a pessoa tem de passar por privações, por perdas de maneira geral, e acaba não eliminando daquele alimento o que deveria ir parar na privada, literalmente. O que as pessoas se recusam a tentar entender é que engordam devido à natureza de sua relação com a comida. Carências afetivas (e gordos são, normalmente, poços de carência) são compensadas com guloseimas, “gostosídeos”, alimentos altamente calóricos e de baixo valor nutritivo. Isso demonstra que os problemas que causam a obesidade são oriundos, portanto, da porção criança da pessoa. Mais especificamente, ousaria dizer que entre a gestação e os três anos de idade é que se formam estes traumas que fervilham medo e carência na alma do gordo. Ora, a maioria das pessoas, quase a sua totalidade, não consegue acessar memórias dessa época espontaneamente, o que ressalta a necessidade de se ter um bom acompanhamento psicológico para o êxito de qualquer processo deemagrecimento. Para coroar minha teoria evoco a memória do típico comportamento infantil: deixe os petizes decidirem o que vão comer, e é bem provável que eles escolham uma dieta à base de chocolate, salgadinhos e refrigerantes.
Vale lembrar que o obeso tem o desejo de realizar mudanças na sua vida. O que lhe falta, normalmente, é resolução para seguir em frente em suas decisões. Decisões estas que normalmente ficam no âmbito dos exercicios físicos, da reeducação alimentar, da privação de determinados alimentos, mas raramente vão para o nível do perdão, do amor e da superação dos traumas.
Não é raro também que os gordos tenham uma dificuldade imensa de dizer “não”. São aquelas crianças que são os filhos perfeitos, os alunos favoritos dos professores, os jovens que se tornam os palhaços da turma, que desenvolvem um excepcional bom humor que, de fato, funciona como um casulo emocional, tal qual já falamos da gordura nos parãgrafos precedentes. Ora, alguém que nunca nega nada a ninguém acaba se empanturrando de “sapos”, que engole para não correr o risco de perder o afeto e a aprovação dos que o rodeiam.
Orgulho e prepotência também são características comuns ao obeso. Muitas vezes este se aferra a uma situação (ou a outra pessoa) claramente perniciosa, apenas motivado pela incapacidade de lidar com o medo da perda que adviria de enfrentar e realizar a solução do problema.
Aliás, em termos psicológicos, é bom ficar atento ao fato de que proporcional ao sentimento de ser vítima do mundo é o tamanho da prepotência da pessoa. Afinal, ela se julga tão especial que todo mundo “quer” prejudicá-la, quer prendê-la, limitá-la. E, naturalmente, a prepotência costuma ser tão grande que refutam inclusive este argumento.
Expostos todos estes pontos — que estão absolutamente distantes de esgotar o assunto — podemos inferir que para que um processo de emagrecimento seja efetivo, duradouro, é necessário que ointeressado esteja munido de muita coragem para mergulhar no seu próprio mundo interior, a fim de descobrir quais são seus monstros pessoais, seus medos, suas angústias, e principalmente onde é que ele não está sendo capaz de perdoar. É preciso muito mais coragem para fazer uma viagem de autoconhecimento, para começar o processo, entrar nos problemas (porque é a única maneira de realmente sair deles), do que para deitar-se numa cama de hospital e permitir que um médico corte ou grampeie um pedaço do estômago.
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